A engenharia reversa, a arte de entender como um programa funciona por dentro sem ter o código-fonte, ganhou um novo parceiro em 2026: os agentes de inteligência artificial. Nas últimas semanas, ferramentas que ligam a IA aos programas clássicos da área explodiram no GitHub, e um desenvolvedor lançou clones do Photoshop e de outros apps da Adobe escritos com ajuda do Claude. Veja o que está acontecendo e onde estão os limites.
REA: um "canivete" de engenharia reversa para agentes
O projeto mais comentado é o REA, sigla em inglês para "faça engenharia reversa de qualquer coisa". Ele funciona como um servidor MCP, o padrão que permite a um agente de IA usar outras ferramentas, e também como programa de linha de comando. Na prática, o agente passa a operar desmontadores e analisadores conhecidos, como Ghidra, IDA e Hopper, além de ferramentas para apps Android, como JADX e Apktool, e para tráfego de rede.
O REA passou de 100 mil estrelas no GitHub no começo de outubro, segundo o programador Fabio Akita, que analisou o código do projeto. A licença é MIT, e o próprio repositório deixa regras claras: só vale analisar programas que você tem ou está autorizado a examinar, e cópias piratas de ferramentas comerciais não são permitidas. Segundo Akita, o guia de contribuição também exclui usar o projeto para quebrar DRM, antitrapaça ou proteção de licença.
Photoshop, Premiere e Lightroom refeitos em Rust
O caso que viralizou foi o do ArtCraft, liderado pelo desenvolvedor Brandon Thomas. O grupo lançou sete programas de código aberto que imitam apps da Adobe, como Photoshop, Illustrator, Premiere Pro e Lightroom, todos escritos em Rust. Segundo a cobertura do IT Connect, o trabalho foi feito com vários agentes do Claude Opus 5.5 em paralelo.
O mais conhecido é o PhotoCraft, que roda em Windows, macOS e Linux. O próprio projeto se descreve como alfa e avisa que ainda não substitui o Photoshop no trabalho profissional. O site OMG! Ubuntu testou e concluiu que a semelhança é mais visual que prática: menus, atalhos e ícones parecidos não significam o mesmo resultado. Os autores chamam o trabalho de reimplementação "clean room", feita sem usar código da Adobe, mas isso não foi verificado de forma independente.
Jogos antigos reconstruídos
É nos games que a combinação de IA e engenharia reversa já mostra resultados concretos. O exemplo mais forte é o de Super Smash Bros. Melee, que acaba de ter todo o código reconstruído, com ajuda de IA na reta final. Outros projetos de decompilação de jogos antigos também relatam uso intenso de IA. O motivo: nesse tipo de trabalho, cada função tem uma verificação automática, então o código sugerido pela IA ou bate com o original, ou é descartado.
Os limites
- Correção: um estudo de 2025, o DecompileBench, concluiu que decompiladores baseados em IA geram código mais legível, mas acertam o funcionamento com bem menos frequência que as ferramentas comerciais.
- Programas modernos: reconstruir um jogo de GameCube não é o mesmo que copiar um app gigante e atual. Para Akita, as partes mais valiosas dos produtos da Adobe, como serviços na nuvem e bibliotecas licenciadas, nem existem no programa instalado.
- Questões legais: engenharia reversa para interoperabilidade e preservação tem precedentes favoráveis em vários países, mas distribuir código ou recursos protegidos continua proibido. Projetos sérios exigem que o usuário tenha a própria cópia do programa.
O que vem por aí
A tendência é que a IA vire uma ferramenta comum de quem estuda software, de pesquisadores de segurança a quem preserva jogos antigos. O Portal GTA 6 vai acompanhar esses projetos na editoria de IA, sempre com fontes e sem divulgar nada que sirva para pirataria.